O escritor e jornalista Edney Silvestre mescla a ditadura militar e o governo Collor para narrar o seu romance Vidas Provisórias

O escritor e jornalista Edney Silvestre mescla a ditadura militar e o governo Collor para narrar o seu romance Vidas Provisórias

 

O jornalista e escritor Edney Silvestre, por muitos anos corresponde internacional da Rede Globo e primeiro repórter televisivo a entrar ao viva, na cobertura do atentado terroristas as torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Lança o seu quarto livro, em três anos. Trazendo a tona dois momentos históricos do Brasil.

Ao jornalista, César Paranhos, Silvestre fala sobre a experiência de mistura realidade com fantasia no seu novo livro e contas curiosidades de sua infância.

  Em quatro anos Vidas Provisórias é o seu terceiro romance. Como surgiu essa paixão pelo universo literário?

Edney Silvestre: Tudo o que escrevo vem marcado por essa paixão que salvou a minha vida.  Fui um menino doente, que mal conseguia se levantar da cama.  Em algum momento, entre os 4 e 5 anos, comecei a ganhar livros.  Não sabendo ler, eu ia compondo tramas a partir das imagens.  Duas historinhas de que gostava envolviam lobos: Os três porquinhos e Chapeuzinho Vermelho. Em “Vidas provisórias” há um momento em que a personagem Barbara, para afastar imagens horrorosas de seu passado, se embala com a canção da Chapeuzinho: “Pela estrada a fora eu vou tão contente…”

Como jornalista, você conviveu diariamente com fatos importantes, que marcaram a história do país como a ditadura militar e o governo Collor. Como envolver, esses dois momentos antagônicos do Brasil na trama de seu do romance Vidas Provisórias?

Edney Silvestre: Não são momentos antagônicos.  Um existe porque aconteceu o outro. Nossas vidas dependem da História. Eu nunca entendi como boa parte dos romances brasileiros ignora a História à volta dos personagens.  Compreendo que isso não faça a menor diferença para personagens de Clarice Lispector, mas para tantos outros romancistas, deixa um vácuo que tira o sentido do comportamento das criaturas. O oposto do que fazia, por exemplo, um dos maiores escritores de todos os tempos, em qualquer língua, que é Graciliano Ramos. Uso a ditadura militar, os anos do governo de Fernando Collor, a época da Operação Condor, da Guerra do Golfo, do atentado ao World Trade Center, porque são acontecimentos que alteraram para sempre nosso tempo.

Quanto fato de ser jornalista te impulsionou a escrever e como o cotidiano de seu trabalho, interfere nos seus livros?

Edney Silvestre:  Escrevo desde muito cedo.  Por volta dos 10 anos, já compunha textos, mesmo sem saber o que fazer com eles. Quando fui morar no Rio de Janeiro (sou de Valença, no Estado do Rio), completava a mesada com traduções e textos avulsos para todo tipo de publicação.  Tornei-me jornalista porque escrevia.  Toda a minha vida, enquanto tentava compor textos de ficção, agia como jornalista – inclusive na minha longa temporada como correspondente internacional (1991-2002), época em que já tecia aquele que se tornou meu primeiro romance publicado, “Se eu fechar os olhos agora”.  A realidade do jornalismo é minha âncora e me ajuda a dar consistência a meus personagens, tal como estão em “Vidas provisórias” e “A felicidade é fácil”.

 Quais são os seus autores favoritos?

Edney Silvestre: Leio tudo, desde quadrinhos (hoje chamados de graphic novels), passando por autores contemporâneos (Alberto Mussa, Adriana Lisboa, Paulo Scott), a clássicos de todos os tempos, como Joseph Conrad, Jack London, Thomas Mann, Balzac. Meu prazer, como o de Borges, é o prazer da leitura.

Em sua opinião, de certa maneira todos nós não vivemos vidas provisórias, que do nada se modifica, ou até mesmo se perde?

Edney Silvestre: Recentemente, após ler meu romance, a Christiane Torloni comentou que todos, em algum tempo, de alguma forma, vivemos “Vidas provisórias”.  Claro que ela e você têm razão. No caso de Christiane, uma atriz, já foram mais de 100 “Vidas provisórias”, vividas nos palcos, nas telas e nas novelas. Essas são as provisórias que se sabem provisórias. Mas dolorosas são aquelas que somos obrigados a viver em tempo e locais que não escolhemos que não queremos que temos dificuldade em suportar, enquanto ansiamos por um sentimento de permanência – tal como anseiam Barbara e Paulo, em seus expatriamentos.

Com a chegada de novas mídias como, por exemplo, eBooks e KOBOS, o livro impresso perde a força?

Edney Silvestre: O livro digital é uma mídia que veio para ficar e acrescentar.  No momento ainda é precário, pior de ler do que uma página impressa em papel.  Mas, quando sair dessa pré-história, há de ganhar força.  É interessante saber que, numa pesquisa informal entre jovens intelectuais em Manhattan, os filhos deles – faixa de 4 a 10 anos – quando instados a escolher entre um livro eletrônico e um de papel, preferem o de papel. Gostam de formar bibliotecas. Até porque ler em telas, como fazem em smartphones e tablets, para essa novíssima geração, é banal.  Enquanto ter um livro de papel na estante, que podem retirar, reler, rabiscar, a qualquer instante, parece ter maior fascínio.

Qual livro marcou a sua vida e você acredita que falta um incentivo a leitura nas escolas?

Edney Silvestre: Na pré-adolescência, “Caninos brancos”, de Jack London; David Copperfield, de Charles Dickens; todos os “Tarzans”, de Edgard Rice Burroughs.  Depois, “O encontro marcado”, de Fernando Sabido, “Tonio Kroeger”, de Thomas Mann, e o “Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald. E, sobretudo, o choque da realidade e do escrever com perfeição do Graciliano Ramos de “Vidas secas”.  Para responder à segunda pergunta, sem leviandade, precisaria conhecer o que são, atualmente, os programas de incentivo à leitura adotados no Brasil.